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Pretérito Imperfeito

Acho que no meu berço, havia verso,

Seria meu leite, ou seria meu universo,

Quem sabe o até seria o inverso,

Meu quarto fosse um leito disperso

e escuro, que desse tanto medo,

que procuro, não poesia, mas o dedo.

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Desautoretrato

 

Não tomei conta de que ponto comecei a perceber

o quanto que a vida interfere na expressão da arte.

Talvez, tenha afinado meus relógios muito cedo

para organizar a vida, ao alheamento da realidade.

Tão frívolo, não sei se exponho o que dói no peito,

O que realmente fere. Não me acho tão caridoso,

Para preocupar-me com consternações alheias,

Nem tão pouco para apartar lágrimas sem rosto.

De súbito, deva ser esteticamente algum outro,

Que morde as veias da sensibilidade das palavras,

Que sobrevive ao desespero, que rasga bandeiras,

Que dá o relevo às angustias, e refresco às mágoas.

Pode ser que dentro destas borradas folhas,

Esteja algum eu que seja um homem comum,

Esculpido em farrapos, tímido e amedrontado,

Ou talvez tenha nascido para ser obra de arte.

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Em Tempos de Alvedrio

“A liberdade não é um luxo dos tempos de bonança; é o maior elemento da estabilidade”  – Ruy Barbosa

Não há correntes, nem antros,

Nem ataduras de sangue entre barrancos,

Não escorrem lágrimas nos itararés,

Talvez alguns sumiços sem explicação,

Mas, nada que engasgue as marés.

 

Sou pássaro do mato, de costume cantor,

Que desfolha os estardalhaços desafinados.

Não me dão sustento, manduco então o tempo,

Sem sonhos, nem força para as bandeiras.

 

Sou melhor como um pássaro de gaiola,

De pezinhos abusados, e pipilo saudável.

Se me prendem eu voo mais alto.

 

Quero mesmo a fúria da ferida, ter nos suplícios

a indignação necessária para dar voz às palavras.

Talvez seja inocente a saudade, que não tenho,

do gosto de sangue na boca manchar

a terra enxuta onde se lavam as letras.

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